Por Margaret Siqueira

Há um perfume que nenhum laboratório conseguiu reproduzir. É o cheiro do creme que a nossa mãe passava nos nossos cabelos todas as manhãs, antes da escola. Dedos pacientes, voz baixa, o pente desfazendo os nós. Não era só beleza. Era presença.

Para muitas mulheres, o ritual capilar é um dos primeiros idiomas de amor que aprendemos. Antes das palavras certas, antes dos abraços adolescentes se tornarem escassos, existia aquele momento: o cabelo da filha nas mãos da mãe, e o tempo suspendendo tudo por alguns minutos.

Como terapeuta capilar, sei que cuidar dos cabelos de alguém é um ato de intimidade. Afinal, cabelo é saúde, mas também é identidade. Cada fio carrega uma história de genética, de território, de pertencimento.

Quando uma mãe escolhe um óleo, um creme, uma técnica para os cabelos da filha, ela traduz cuidado em gesto.

Quantas de nós aprendemos a amar nossos cachos — ou a aceitar nossas ondas, ou a respeitar nossas lisuras — porque alguém primeiro os amou por nós?

O conhecimento que atravessa gerações não está apenas nos rótulos dos produtos. Ele vive na prática. Em saber que cabelo ressecado pede umidade antes de proteína. Em entender que o calor do secador precisa respeitar o tempo do fio. Em perceber, quase por instinto, quando uma mecha precisa de mais cuidado do que de pressa.

Quando cuidamos dos nossos cabelos com intenção, honramos tudo o que nos foi transmitido e escolhemos, conscientemente, o que queremos passar adiante. O cuidado deixa de ser obrigação e passa a ser escolha.

Uma das transformações mais bonitas que a terapia capilar trouxe foi essa mudança de olhar: o cuidado deixou de ser sobre adequação e passou a ser sobre saúde. Já não se trata de alisar o que é crespo ou enrolar o que é liso para caber em um padrão. Trata-se de reconhecer o fio como ele é e oferecer a ele o que precisa para florescer.

Essa mudança de perspectiva se entrelaça com algo ainda maior: a forma como aprendemos a nos olhar, a nos aceitar e a nos cuidar.

Neste Dia das Mães, talvez o gesto mais poderoso não esteja no produto mais caro da prateleira. Talvez esteja em sentar com ela — ou com sua filha — e deixar as mãos fazerem o que sempre souberam fazer: cuidar, estar, permanecer.

Porque, no fim, o que os cabelos guardam da gente é exatamente isso: a memória de quem ficou.

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